Like a cloud dropping rain...
11 de Novembro
Cheguei a casa há meia hora, são quase duas da manhã. Dormi cerca de 3 horas e meia na última noite e tive de ir trabalhar nessas condições.
Mas não dá para ir para a cama sem escrever isto (que de certeza sairá confuso, dadas as circunstâncias). Não dá mesmo.
A mãe de uma amiga minha (a senhora é enfermeira), quando a filha lhe disse uma vez que lhe doía o coração, respondeu-lhe que isso biologica ou fisiologicamente, não é possível. Pois bem, a senhora de certeza que nunca viu Sigur Rós ao vivo, é a única explicação.
Dói-me muito, demasiado, o coração. Deve ser de tão apertado que está. O que eu senti hoje não tem qualquer tipo de explicação racional. Tanta beleza tem de doer. E doer precisamente no que nos dá vida. Isto de estar vivo tem de ser a coisa mais preciosa que existe. VIVO. Não digo inspirar, expirar, acorda, vai trabalhar, volta para casa, vai dormir, volta a fazer tudo novamente no dia seguinte e no outro e no outro… Isso qualquer um faz, involuntariamente. Digo mexerem-nos nos ‘botões’ certos e despertarem em nós sensações que nunca sonhámos na vida! Dei por mim completamente arrepiada, do fundo da espinha até à nuca. Dei por mim de olhos mareados, a sorrir, embevecida. Dei por mim num sítio bem longe deste. Só existiam aquelas quatro almas em palco e as demais que se deixavam alimentar por elas. Estou completamente cheia, devorei tudo. Será uma pessoa capaz de viver sem música? Sem arte? Sem poesia?… A comida pode alimentar o corpo, mas alimento para a alma? Hoje a minha está que nem pode. Abusei mesmo.
Estava sentada naquela cadeira e pensei em todas as pessoas de quem gosto, todas as pessoas que são importantes para mim, que me marcaram, que me marcam todos os dias. Quis tanto (mas tanto!) tê-las todas ali, comigo. Porque é o presente mais perfeito que lhes poderia dar na vida: alimentá-las também. Mostrar que isto sim! ISTO é o porquê de andarmos cá! E talvez também o porquê de ser tão efémero…
Em frente ao meu trabalho há uma parede com uma frase escrita a caneta preta com letras muito miudinhas: o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
É.
terceira pessoa
Às vezes acho que ela pega na caneta e tem medo de ficar no papel… Talvez medo de se perder, ou pior, se encontrar. Se calhar consome-a, o exercício de preencher linhas. Como aqueles índios que não querem que lhes tirem fotos com receio que isso lhes roube a alma.
Olho para ela e pergunto-lhe: é assim tão doloroso? Deixa-me sempre sem resposta. Quase que consigo ver o esforço, quando sente que é demasiado para conter e sabe que tem de pôr fora. Cá fora.
Sinto-lhe aquele impasse, aquela vontade de não pensar e agir, aquela vontade de se dar, de se deixar ficar naquele papel. Mas chega a hora e fica dentro. Chega a hora e ela fica dentro. Eu vejo-a e não posso fazer nada. Olho para ela.
Olho para ela com atenção.
Ela sou eu.