terceira pessoa
Às vezes acho que ela pega na caneta e tem medo de ficar no papel… Talvez medo de se perder, ou pior, se encontrar. Se calhar consome-a, o exercício de preencher linhas. Como aqueles índios que não querem que lhes tirem fotos com receio que isso lhes roube a alma.
Olho para ela e pergunto-lhe: é assim tão doloroso? Deixa-me sempre sem resposta. Quase que consigo ver o esforço, quando sente que é demasiado para conter e sabe que tem de pôr fora. Cá fora.
Sinto-lhe aquele impasse, aquela vontade de não pensar e agir, aquela vontade de se dar, de se deixar ficar naquele papel. Mas chega a hora e fica dentro. Chega a hora e ela fica dentro. Eu vejo-a e não posso fazer nada. Olho para ela.
Olho para ela com atenção.
Ela sou eu.